sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Um crime no Natal



É uma verdade já muito conhecida a de que datas festivas, no geral, podem ser sempre muito esquisitas, e o Natal passado foi, provavelmente, a mais estranha delas. Estávamos todos sentados em torno daquela longa mesa de jantar de madeira corrida, meus amigos, os amigos dos meus amigos e algumas outras pessoas as quais eu sequer fazia ideia de quem fossem. Minha irmã, sentada na cadeira ao lado da minha, tentava conversar comigo, mas eu não conseguia me concentrar em nada além do pequeno pinscher sobre a mesa. Uma amiga dos amigos havia levado consigo o seu pequeno cachorro e decidira colocá-lo sobre a mesa, e o maldito pinscher não parava de latir, sufocado e esganiçado.
Nesse momento a campainha toca e alguém se levanta para abrir a porta. É um dos meus amigos que chega para a ceia e senta-se na ponta da mesa, próximo de mim. Ele me entrega um jornal, parecendo preocupado, e eu encaro a manchete da primeira página. A notícia é sobre o assassinato de uma jovem na manhã do dia anterior. Antes que eu possa entender o que aquilo significa, minha irmã, completamente atordoada, arranca o jornal de minhas mãos. Eu lhe pergunto qual é o motivo daquilo, mas ela me ignora. Então me levanto e vou até o banheiro, e enquanto encaro meu reflexo no espelho, tento buscar em minhas memórias quem era aquela mulher da primeira página. Como um flash, eu me lembro.
Eu estou parada junto à minha irmã, no meio da rua, e um grupo de mulheres corre pela calçada próximo de nós. Nós estamos fugindo de alguém, mas tudo parece muito nublado e distante para mim. A mulher misteriosa aparece correndo em nossa direção, enquanto grita parecendo completamente surtada. Como legítima defesa eu a impeço e, antes que possa entender o que estou fazendo, seguro seus cabelos e bato sua cabeça com força contra a calçada repetidas vezes. O sangue está por toda parte, ela está morta e eu enfim posso respirar. As memórias terminam e sou puxada de volta ao presente. Eu retorno para o jantar, me sento e encaro minha irmã. Ela me encara de volta. Sentadas naquela longa mesa de madeira corrida, apenas nós duas sabemos a verdade. Aparentemente, eu assassinei uma pessoa na noite passada. E não qualquer pessoa, mas a namorada do meu melhor amigo, e o pior de tudo isso é que eu não sei o por quê. Enquanto tento respirar, o maldito pinscher continua latindo.

Hermes, o mensageiro

Nenhum comentário:

Postar um comentário