sexta-feira, 20 de abril de 2018

A luta para ter o que já se possui

Estou indo a um show de uma banda que eu gosto muito agora. Tenho que enfrentar trem e BRT até chegar lá, e como ambos estão cheios vou o caminho todo em pé. Há pouco entrou uma menina no vagão e ela levantou o braço pra segurar na barra, no momento desse ato pelo menos três pessoas a encararam com cara de desdém, inclusive meu amigo.

"Nossa mano, que nojo", ele disse. Retruquei que eram apenas alguns pêlos e não tem absolutamente nada demais nisso. Meu caro amigo machista não se conteve e continuou o assunto com comentários inconvenientes como "mas ela não tem a mínima higiene" ou "se aí está assim, imagina lá em baixo". Perdoe a linguagem exdrúxula, mas para fins de verossimilhança eu precisava reproduzir isso aqui.

Chegamos ao show, esqueci de mencionar que se trata de uma banda de rock e sem querer reproduzir um estereótipo -mesmo já fazendo-, é óbvio que nos deparamos com vários homens barbudos e cheios de pêlos pelos seus corpos. Nenhum comentário sobre.
A questão aqui é que nem todos temos direito aos nossos corpos e isso não é novidade para algumas que lerão esse texto. Para além de todos os sutiãs já queimados e todos os direitos conquistados o fato é que o mais difícil é mudar a cabeça das pessoas, fazer com que elas compreendam que há uma submissão explícita pairando nossa sociedade e ela vai muito além de uma axila com pêlos.

Você pode estar se perguntando se eu tentei conversar com meu amigo. Bom, nossa discussão chegou até a arena do show, onde eu tentei mostrar que o que começa em hostilidade à um corpo naturalmente peludo, pode passar por mulheres assediadas em transportes públicos até trinta homens estuprando uma menina. Minha argumentação não foi o suficiente e eu sinto muito em informar que você não vive em um mundo um pouco menos preconceituoso agora. E se você for mulher, sinto mais ainda. Eu falhei em tentar fazer você ser um pouco mais, minimamente mais, dona de você.

*Para fins de precaução: vocês não sabem se sou homem ou mulher, não me julguem, bjs de luz

Por Rodrigo M. S.

9 comentários:

  1. Cara gostei bastante do cenário do seu texto, da para facilmente se ver nele e vivendo o que foi escrito. Você usou muito bem o recurso do tema de diálogo ao longo da narrativa, não ficando no campo raso. E o melhor é o final em aberto e pessimista, que traz uma verdade que muitos de nós passamos hoje na construção do texto. Enfim: ficou incrível

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  2. Simples, conciso e eficaz. Adorei muito.

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  3. Eu me senti inserida no seu texto. Você descreveu muito bem o cenário e a situação, o que trouxe uma aproximação natural entre o texto e o leitor! Parabéns pela reflexão e escrita!

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  4. Seu texto me fez estar incluída em tudo, pude me ver e ver a reação das pessoas do meu dia a dia claramente, como a Andrea disse o texto trouxe uma aproximação natural entre o texto e o leitor. Achei simples, eficiente, verdadeiro e honesto seu texto em relatar a realidade que infelizmente vivemos!

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  5. Adorei sua crônica. A crítica ficou muito bem relacionada com a narração, o cenário, os personagens... Ótimo isso! E o final, absurdamente realista. Crônica incrível, uma das minhas favoritas.

    - Desproporção Sentimental

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