sexta-feira, 13 de abril de 2018

O Céu das apatias

Naquela noite, entre cheiro de mijo, cápsulas de cocaína, paredes descascadas e, acima de tudo, indiferença, Pierre andou. A iluminação era fraca, mas não o suficiente para impedi-lo de observar os ratos esqueléticos que entravam e saiam freneticamente do bueiro aberto, como se fossem formigas. Ratos esqueléticos. Pode-se dizer o que de um lugar onde até os ratos passam fome?

Havia descido do ônibus há pouco tempo, estava extremamente cansado e se sentia sujo, mas não por falta de banho – certamente não era o homem mais higiênico do mundo, mas isso pouco lhe importava. Sentia que seus princípios haviam sido manchados, pois horas antes, enquanto caminhava para o ponto de ônibus, ouvira um grito de socorro. Grito de mulher, vindo de dentro de uma casa. Conseguiu ouvir com perfeição toda a situação, todos os socos e chutes, como se estivesse lá. Um marido lunático, claramente bêbado, exercendo o mais comum dos atos de um homem de bem.

A primeira sensação que lhe veio à cabeça não foi ódio, muito menos coragem; na verdade, se sentiu completamente ameaçado. Não queria se intrometer, mesmo sabendo que seria o certo. Um sentimento de medo tomou seu corpo, como se ele mesmo estivesse sobre risco. Tapou seus ouvidos como uma criança ao ver os pais brigando, apertou o passo e, em segundos estava longe, completamente longe daquela situação.

Pierre era um homem de princípios, uma pessoa esclarecida, jamais faria mal a ninguém. No entanto, enquanto pensava no ocorrido, ao caminhar sozinho pela rua suja, percebeu que havia sido tomado pela pior das embriaguezes: a apatia. A mão do agressor, naquele momento, não era muito diferente da sua. Sentiu como se tivesse contribuído diretamente para que o ato animalesco ocorresse, inclusive.

Seu idealismo, suas ambições, sua utopia; não sobrou nada. Percebeu que não era diferente de ninguém... E pela primeira vez na vida, se sentiu alguém. Pela primeira vez na vida se sentiu leve, se sentiu feliz, sentiu como se não tivesse a mínima obrigação de nada. Ao menos uma vez viu semelhança com seus compatriotas. Tinha completa noção da podridão de seu caráter, mas como sabia que agora era igual a todos, isso perdeu a significância que tinha.

Pierre entrou no primeiro bar que viu, pediu uma cerveja, e feliz como uma criança, comemorou o gol que o Flamengo tinha acabado de fazer. Pierre não era flamenguista. Pegou seu copo, brindou com a garrafa e, antes de beber aquilo tudo em uma talagada, disse com ar de satisfação para si mesmo:

“Um brinde ao nada!”

Por Reed Lou.

7 comentários:

  1. Meu Deus, isso é muito Black Mirror!!!! Eu amei a construção da narrativa e UAU. AAAAA

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Gostei bastante da forma como você abordou a indiferença e hipocrisia do brasileiro, frente às inúmeras coisas que acontecem diariamente. Essa contradição definiu tudo - comemorar o gol do flamengo e não ser flamenguista. Parabéns!

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  4. Eu gostei de usar seu personagem além de um crítico e o analisou numa perspectiva diferente, que ele também faz parte dessa nação ou desse lugar que tanto ele crítica e que seu comportamento também pode ser igual aos demais. Gostei pois, me faz refletir sobre minhas atitudes e se também estou sendo levado pela "semelhança com nossos compatriotas"

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  5. Você conseguiu captar a essência da massa brasileira de uma maneira extremamente criativa. A hipocrisia de comemorar o gol do flamengo e não ser flamenguista foi uma analogia fantástica! Crônica simplesmente sensacional!

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Achei a linguagem e a composição da crônica, de certa forma, complexas. Além disso, apesar de caracterizar bem uma grande parte dos brasileiros, a crônica ficou um tanto pesada e negativa.

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