sexta-feira, 12 de maio de 2017

As testemunhas do caos

Estou sempre sem tempo, mas alguém me disse para vir porque hoje, aqui, eu vou descobrir quem eu quero ser. A verdade é que eu já sei o que eu não quero 
Nasci há quase duas décadas e tenho as mãos calejadas pelo esforço. 
Trabalho. Infantil. 
Cresci em um casebre de três cômodos achando que o mundo terminava num beco sujo e úmido. Minha mãe, que não queria que eu visse o que tinha lá fora, logo me deixou sair. Era me esconder ou me fazer arrumar o que comer. Segunda opção, por isso a condição das minhas mãos. 
Eu ainda não tenho história, mas eu quero contar algo para alguém, quero ser jornalista. Não cabe aqui contar como escolhi descer da favela ao invés de virar a esquina até a boca. Estou aqui, hoje, para ouvir Peter Arnett, repórter de guerras. Vim ouvir o que esse homem tem a contar que eu nunca vi, que eu nunca ouvi. Em poucos minutos ele vai estar diante de mim e mais outros muitos curiosos de conhecimento. Eu vou saber muito sobre ele, e ele nada sobre mim. 
Que bom que vim. 
Arnett conhece o mundo, conhece o homem. Ambos em seus piores momentos. Ele experimentou o extremo: eu também.  
Estou sentado aqui pensando em tudo o que esse homem fez para estar vivo. O terno que precisou vestir, a arma que precisou carregar. Arnett conhece a vida, e mesmo depois de ter visto os seus horrores, ele ainda a aprecia. Isso eu também tive que aprender. Por isso estou aqui. 
Sua feição insiste em dizer que é como qualquer um, mas não pode ser. Somos moldados pela experiência e Peter é lapidado pela guerra, pela dor, pelo cheiro do cadáver e do fogo destruindo tudo. Eu sou moldado pelo medo e pela luta. 
Intervalo na palestra. Almoço. 
Cada palavra até aqui só me trouxe mais certeza. Eu quero fazer o que ele fez, eu tenho o mundo pela frente, certo? Foi o que Peter disso. 
Mas estou realmente sem tempo, vou voltar correndo. Prometi para minha mãe que chegaria para o almoçoVou virar a esquina, sei que entrar por esse lado está perigoso: aqui eu vivo uma guerra que Peter ainda não conheceu, e eu a vejo todos os dias.  
Preciso correr, prometi para a minha mãe.  
As pessoas estão correndo. De novo não, de novo não. 
Escutei um barulho, mas não posso parar. 
Estou vendo o portão de casa daqui, vou chegar. Mas porque está tudo ficando tão escu

Por Tyler Durden

3 comentários:

  1. Angustiante, mais uma vez. Carregado de sentimentos. Um texto incrível! Mas não consegui enxergar o Peter como protagonista dele e isso foge um pouco do que foi pedido.

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  2. Acho que perdeu o foco, o que deveria ser a construção do perfil se tornou citação de momentos da vida dele contado por outro personagem. mas o texto é ótimo

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  3. Gostei da comparação entre Peter e o narrador.

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