quinta-feira, 18 de março de 2021

Menos um dia

 Hoje o despertador não tocou. Não aquele programado no velho celular com metade das faturas em aberto. Pra sua sorte, ou não, a hélice do helicóptero águia da Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro anunciava a chegada de mais um dia de sua miserável "vida". Oriundo do Morro dos Prazeres, dos quais nunca gozou, teve sua existência marginalizada desde a infância. Filho único de mãe solteira, viu aos 9 anos de idade sua única companhia cometer suicídio. No orfanato, rapidamente se tornou um fiel escudeiro de sua melhor amiga: a solidão.

Ligeiramente atrasado, a corrida até a estação acompanhava involuntariamente os mais mórbidos pensamentos que a mente humana é capaz de produzir. O balanço do trem aguçava o calor da massa, mas, para ele, aquele vapor quente subindo o peito, misturado com o grude do suor que atritava a blusa com sua pele, significava muito mais. Talvez aquele passasse longe de ser mais um dia. O emprego integral de vigilante não fornecia os recursos necessários para sair da comunidade, mas, ao menos, bancava seus 2 maços de cigarro diários.

Cinco minutos. Esse foi o tempo necessário de atraso para que fosse demitido. Sem carteira assinada, seu único direito era usar a última passagem do bilhete carioca para voltar para casa. Ao meio dia, o calor havia aumentado consideravelmente, seu nível de estresse beirava o limite, e a pistola fornecida pelo antigo emprego seguia em sua cintura. Antes de enfrentar o caos dentro do trem, encosta no poste da esquina e alimenta o seu pulmão com o vício da nicotina. Injuriado, os ruídos dos carros eram ensurdecedores, as buzinas o arrepiavam até a última espinha, e as vozes cotidianas das pessoas a sua volta passavam a ser insuportáveis.

Subindo as escadarias da favela, enfrenta o rotineiro processo de ignorar o sofrimento alheio escancarado em seus olhos, dessa vez não consegue. Não tinha mais força para isso, não tinha mais força para nada. A vida o fez de palhaço. O rangido da porta parecia ser uma das últimas perturbações que ele iria ouvir. O suor gelado contrastava com a secura de sua boca, as pernas não respondiam perfeitamente seus movimentos, mas somente as mãos já seriam suficientes. Sentado na cama, se despede da ínfima sensação de estar acordado. Leva a mão esquerda a cintura, puxa a pistola, ergue-a na altura da cabeça, confere se está carregada e finalmente a guarda. Deita na cama e dorme.


Rato Guaraná

23 comentários:

  1. Rato, gosto tanto dos seus textos! E esse, obviamente, não me decepcionou! Você tem uma habilidade surreal de transmitir sentimento pelas palavras. Parabéns demais!

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  2. Sensacional,Rato! Seus textos são incríveis e esse, em especial, me tocou de maneiro surreal. Narrativa digna de livro , novela... Extremamente real e carioca , em particular.

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  3. Rato, seus textos são sempre incríveis! Eu adorei esse texto, a narrativa criada como forma de interpretação da imagem ficou sensacional. Muito bem escrito, parabéns!

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  4. Uauuuu! Perfeito! Acho que tivemos uma visão parecida, mas você expressou de uma maneira sensacional! Parabéns, Rato! <3

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  5. Parabéns pelo texto! Como sempre brilhante. Muito bom o desfecho.

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  6. Perfeito, Rato! Me passou toda a sensação da foto! A forma como vc escreve é impressionante, parabens!

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  7. Sensacional, Rato! A descrição e das cenas e os detalhes da ambientação foram incríveis, muito imersivos! Mais um ótimo texto, parabéns!!

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    1. Muito obrigado, Rosto! Sempre tento trazer essa imersão pros meus textos e é bom saber que você gosta!

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  8. Oi, Rato! Amei seu texto, incrível a forma como você escreve! O final me deixou chocada! Transmitiu direitinho os sentimentos! Parabéns, muito bom!

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    1. Muito obrigado , Letra X! Fico muito feliz, de coração!

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  9. Rato, você sempre me surpreende! Seu texto foi, mais uma vez, impactante e bem construído. Gosto muito como você nos traz as angustias e tristezas de milhões de brasileiros em cada um dos seus textos, de formas diferentes. Parabéns parabéns parabéns parabéns.

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    1. Espero continuar surpreendendo, Maria! Muito obrigado obrigado obrigado obrigado!

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  10. Oi Rato, gostei muito da forma como vc escreve ambientando o seu texto, com muita riqueza de detalhe, isso me fez sentir mais presente e imersa na sua leitura! Além disso, acredito que essa riqueza de detalhe ajude na eficácia de seu texto ao transmitir sentimentos ao leitor!

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  11. Rato, gostei muito da forma como você construiu essa narrativa, tão rica em detalhes e significado. A solidão, a agonia, a essência da imagem, tudo expresso com muita beleza nas suas palavras. Parabéns por mais um texto incrível!

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  12. Rato Guaraná, amei muito o texto. Assim como você comentou no meu, eu simplesmente adorei como você conseguiu me prender na narrativa cada vez que ela progredia. Acho que você captou a essência do quadro de um modo que todos conseguiram entender! Parabéns! Beijão <3

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  13. Nossa, Rato, que texto sensacional!!!! Simplesmente maravilhoso, adorei ver o decorrer da história do personagem, por vezes até consegui identificar essas características típicas de um carioca trabalhador. Realmente é assim mesmo... Enfim, incrível! E com esse texto você ganha mais uma fã!

    Beijos, Estrela!

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