sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Ruínas de Guerra

 Eu travo guerras na minha cabeça, entre os muros que construo e os demolidos por forças externas. Minhas trincheiras são apenas poças quando comparadas aos danos causados pelas bolas de demolição inimigas. Porém, a reconstrução e as marcas da batalha são muito mais doloridas depois que o frenesi e adrenalina do combate esvaem-se em lágrimas.

Creio que uma prolixa subjetividade e pedantes metáforas sejam tentativas falhas de recolocar os tijolos do meu muro destruído e remendado tantas vezes, excedendo qualquer capacidade  de contar. Cada vez que não me permito sentir minhas próprias emoções, respondendo na pior face da moeda, sua frágil estrutura é reforçada. Porém, quando concedo passagem ou me obrigam a abrir caminho para vulnerabilidade, o muro desmorona junto comigo, em corpo e alma.

Com palavras mais concretas, desde a infância fui atacada da pior forma, com palavras. Das poucas vezes que essas agressões foram materializadas, a ferida foi muito mais superficial. Definitivamente, a dor de olharem nos seus olhos, apontarem cada falha sua e insultarem cada parte do seu corpo, ainda em formação, é mais forte do que um empurrão contra a parede. 

Esses constantes abalos físicos e emocionais fizeram com que eu criasse uma defesa própria e utilizasse palavras chapiscadas contra qualquer investida, mesmo que ela fosse uma bandeira branca. Eu acreditava piamente que essa armadura de insolência me protegia, quando na verdade, ela impregnava  minha mente com ferrugem e angústia.

Hoje, apesar de não ter vozes púberes me rebaixando regularmente, seus ruídos ainda me assombram. E, em meio a devaneios da madrugada, quando o volume dos ecos aumenta, o remorso bate na mesma intensidade. 

Arrependo-me de ter deixado palavras vazias, minhas e alheias, me consumirem. Arrependo-me de ter sido um alvo fácil, meus contra-ataques abriram mais brechas do que avançaram em território rival. Arrependo-me de esconder mais singelos traços por trás da fúria e da arrogância. Arrependo-me de não ter sido honesta comigo mesma. Arrependo-me de ter afastado quem me estendeu a mão por medo.

Não sei se um dia serei capaz de transformar essa ruína em um abrigo. Infelizmente, não há protocolo para consertar meu muro nem meu coração quebrado. 


                                                                                                                  Glen Coco

14 comentários:

  1. primeiramente, sinto muito! espero que você esteja conseguindo se reconstruir de pouco a pouco, tenho certeza que vai sim conseguir consertar seus muros e ser seu próprio abrigo ❤️

    Eu gostei da crônica, teve uma ótima construção, escolha de palavras muito interessante e da pra perceber que você se abriu de verdade.

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  2. Que texto lindo e, de verdade, sinto muito que você tenha tido que passar por tudo isso por tanto tempo! Amei a construção do texto e, principalmente, as metáforas e escolha de palavras do começo. Parabéns!

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  3. Glen Coco, você é uma pessoa especial, percebo em cada crônica sua. Além disso, tem uma escrita única e inconfundível. Amei a crônica. Confesso que no início fiquei um pouco perdido, mas tudo ficou perfeito quando entendi as metáforas. Abraços da Formiga!!!

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  4. Texto exuberante, metáforas impecáveis e com toques de genialidade. Na minha cabeça parecia que eu estava dentro do seu cérebro, muito por conta da profundidade do seu texto, meus mais sinceros parabéns, arrebentou!

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  5. Texto muito bem escrito cheio de metáforas que contam muito sobre você e seus sentimentos. E sinto muito por você ter passado por isso, vivenciar coisas assim tão jovem nos fere pro resto da vida.

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  6. Uau, Glen. Texto muito bonito, forte e bem escrito. De qualquer forma, gostaria de dizer que passei (e passo) pela mesma coisa desde quando nasci. Os olhares e comentários sobre o meu corpo ecoam na minha cabeça até hoje. Me identifiquei muito com sua crônica e acho que precisou de muita coragem para escrevê-la. Parabéns!

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  7. Texto muito bonito, bem escrito e cheio de metáforas incríveis. Sinto muito por você ter passado por esses momentos. Parabéns pela crônica!!

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  8. Texto muito bem construído e com analogias bem trabalhadas! Dá pra sentir sua entrega nas palavras, e me identifico com muitas delas. Parabéns!!

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  9. Uau, que escrita potente, tão forte quanto a pessoa que a escreveu. Obrigada por dividir um pouco da sua guerra conosco, de forma tão bonita. As palavras que foram motivo de angústia pra você, hoje se tornam arte em forma de crônica. Parabéns!

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  10. Seu texto é muito forte, coeso e bem escrito. Triste que você tenha passado por isso, espero que suas ruínas se reconstruam com força. Parabéns pela escrita

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  11. Um dos melhores textos que eu já li no blog!
    Extremamente emocionante e bem escrito, parabéns por esse talento incrível que você tem!

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  12. Que texto forte e bonito de ler, perfeito! Sinto muito por você e parabéns pela crônica

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  13. Glen, que texto! Estou muito tocado e emocionado.. espero que você tenha conseguido não se importar mais com esses comentários absurdos, sem noção, com zero empatia e completamente falsos. Parabéns pela crônica

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  14. Terminei a crônica querendo te dar um abraço, Glen. Parabéns pela força de ter escrito algo tão profundo, imagino que não deve ter sido fácil. Espero que você siga com forças e não se importe mais com esses tipos de comentários. Amei a crônica, ótima escrita e as metáforas foram muito inteligentes.

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