quinta-feira, 15 de julho de 2021

Descobri que posso odiar

Eu fui católica por muitos anos. Tinha poucos meses quando fui batizada, ia à missa

todos os domingos e mesmo que eu dormisse no banco, minha avó fazia questão de me

levar, fiz primeira eucaristia com minhas amigas por anos, participei e servi em

encontro de jovens e, quando entrei na crisma, decidi que seriam meus dois últimos

anos dentro da igreja. Ironicamente, escolhi dentre os sete sacramentos aquele que

existe para confirmar a minha fé que a abandonaria. Enquanto criada por uma família

católica, em uma escola católica e rodeada por normas católicas, ainda tenho certa

dificuldade para me livrar de alguns costumes.

Porém, o que se esvaiu mais rápido foi o de crer que o próximo é bom e deve ser

perdoado. Não que o tempo que isso foi escrito fosse o paraíso, cheio de pessoas com

bons corações e amor de sobra, mas, olhando para o hoje, parecem não ter noção do que

o homem pode se tornar. Como esperam que eu perdoe alguém que deu 80 tiros em um

carro de família por puro racismo? Como querem que eu demonstre amor por aqueles

que quebraram uma lâmpada de led na tentativa de assassinar alguém que pensaram ser

homossexual? Como crer que as pessoas podem ser boas se veem uma mulher sendo

agredida com a filha no colo e, ao invés de apoiá-la, decidem seguir a rede social do

agressor? Como não desejar a morte de um homem que é expressa e orgulhosamente

racista, misógino, homofóbico, genocida e, talvez até pior, presidente?

Quero que se fodam. Falo do jeito mais gentil que consigo.

Uma vez eu li que desejar a morte de alguém atrai karma ruim e eu acreditei, faz

sentido. Não tenho religião, mas tenho minhas crenças, sei o valor dos atos de bondade

e tento ser uma pessoa genuinamente boa. No entanto, ninguém mais me convence que

a morte ainda é pouco para alguns como esses. Não quero que paguem em vida, o que

têm a oferecer? A existência de pessoas ruins me incomoda, pois, além de ferir o outro,

ferem também o meu ego. Não consigo ser Santa o suficiente e não desejar incontáveis

eventos péssimos na vida de cada um e proferir todos os palavrões e ofensas

disponíveis. Me pergunto por que me envergonhar da minha repulsa (válida!) enquanto

todos esses fazem questão de expor até na mínima das oportunidades esse lado atroz e

putrefato.

Como nos velhos tempos que eu ia até um padre, sentava à sua frente e me esforçava ao

máximo para falar em voz alta meus piores atos até o momento que ele me pedia para

proferir o Ato de Contrição, dessa vez sem me arrepender:

confesso que por vezes julgo o próximo sem a mínima necessidade, me sinto satisfeita

quando minto e acreditam em mim, falo que odeio meus pais como uma típica

adolescente de 18 anos, não me importo em ser egocêntrica e hipócrita, torço pelos

vilões se a história for mais legal. Tenho consciência de tudo isso, por mais que me

incomode admitir. Confesso que a culpa católica ainda me persegue em alguns

momentos.

E, para terminar,

Confesso que abro um sorriso largo todas as vezes que imagino aquela música do

Gabriel, o Pensador se tornando realidade.


Ametista

9 comentários:

  1. Ametista, esse é o sentimento. Já chega de moralismos, deuses e punições. Eu quero odiar e não me sentir mal por isso! É meu direito sentir repulsa dos que só praticam o ódio. Me recuso a devolver amor e perdão. Desculpa, Jesus e Espírito Santo. Nós queremos que se fodam.

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  2. Ametista, eu gostei e me identifiquei muito com o seu texto! Tem muitas coisas no cotidiano que estão erradas sim! E não julgar ou se incomodar, seria aceitar fazer parte do grande grupo de pessoas alienadas que existe na nossa sociedade.

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  3. Ametista, gostei muito do seu texto e na verdade mesmo sendo católica concordo que seja difícil perdoar em um mundo tão ruim como esse, porém acredito que também tem que haver um equilíbrio. Se existem pessoas para fazer coisas ruins, tem as boas também. Não devemos aceitar de forma alguma que esses crimes perpetuem e nem é nossa obrigação perdoar mas apenas que essa nova geração seja melhor que a anterior. Parabéns pelo texto <3

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  4. Ametista, karma/lei do retorno não existe! Não se iniba de pensar algo que você quer pensar, pois isso só faz você reprimir coisas que deveriam serem expostas.
    Também, infelizmente nossa sociedade foi construída baseada na fé; "Amai o próximo a ti mesmo", mas quando convém, não é? Espero que, um dia, as pessoas percebam que o câncer dessa sociedade é a religião.
    Mas enquanto mudanças não acontecem, não se esqueça: Xingue, escreva, grite, não vale a pena guardar nada que vá te fazer mal.

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  5. dona ametista, que tiro foi esse seu texto, sério! está incrível e eu entendo também esse sentimento, a culpa religiosa me persegue muito às vezes, mas é impossível pra mim não desejar as piores coisas a pessoas tão cruéis. existem quase 8 bilhões de pessoas no mundo, não é? e eu me nego a acreditar que todas ela possuem algum tipo de "salvação", até me dói assumir isso. mas enfim, esse seu texto ganhou um espaço precioso no meu coração ❤

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  6. Ametista, achei seu texto incrível! Me identifiquei com você, pois me sinto de forma parecida. É muito difícil não desejar o mal de pessoas ruins, inclusive, por diversas vezes, essas pessoas estão tão próximas de nós que usamos uma máscara por cima do ódio e repulsão que sentimos.

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  7. Ametista, que texto! Cresci católica também e você expressou um sentimento que eu nunca consegui nomear. Obrigada :)

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  8. Ametista, compartilhamos vejo que compartilhamos do mesmo incômodo As vezes fico pensando o que foi que mudou naquelas pessoas que eu conheci, que pareciam ser as melhores e mais gentis pessoas do mundo! A única diferença é que eu estava do lado protestante. Eles não são tão diferentes quanto dizem afinal, né ?

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  9. Ametista, fiquei curiosa sobre a referência da música do Gabriel. Eu não pesquei, talvez porque não conheça muito dele. Qual música seria?

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